30.3.08

Typhoon Krosa 7 Out. 2007

Archivo de imagens #28

Tinha Tinha

A falha
Que tinha
Na cara
Não era
De Sarna
Era tinha

Mas já não
Há falha
Na minha
Carne
Foi extinta

E a falha
Sem barba
Na minha
Cara
Que não
Era Sarna
Mas Tinha
Já pica
De barba
Cheiinha

Paulo Ovo

27.3.08

Romance Grotesco

No meu dicionário mental
Associo à palavra grotesco
A sua cara de cavalo.

De olhos fechados vagueio
Através da matina de ar fresco
Tremendo pela rua com anseio.

Transpor tão desgraçada cancela
Foi impulso quixotesco
Em busca de tão feia donzela.

Aterrorizada a grande mula zurrou
Mal vislumbrou meu jeito simiesco
De pernas tortas e capote de grou.

De damas é que eu não pesco
Terminou mal começou
Meu romance pitoresco.

Diniz Giz

Curses, Invocations


Caudinha de Marmota

Bigode Chinês

Bola de Naftalina Húmida

Catotas Despenteadas

Barca Rota

Hálito de Burra

Mija de Osga

Casaca do Cigano

Ceroula de Velha

Tíbia de Macaco Idoso

Céu da Boca Inquinado

Bafo de Ostra


POPULAR

Oferta de Emprego

Pela matina atravessava o Chiado,
Os loucos já sentados nos seus postos,
Algum trabalhadores nocturnos voltavam a casa,
E os alegres a vagabundearem bêbados.

Eu não queria, mas ia trabalhar,
Preferia ser louco e coçar as costas no Adamastor,
Pedir bolos grátis nos cafés,
Ou ficar sentado na boca do metro a ver as inglesas.

Andava contrafeito pró trabalho,
Preferia ir já cansado da faina nocturna,
Curtindo a madrugada fresca,
Embalado no cacilheiro para um sono diurno.

Olhei com rancor a porta do escritório,
E desejei a leveza do ébrio,
Quis gritar sem consciência dos meus actos,
Flutuar de bar em bar sem memória dos dias.

Cumprimentei com vivacidade o porteiro,
Sentei-me na secretária concentrado,
Liguei o computador com cara alegre,
E trabalhei com o afinco habitual.

Zé Chove

22.3.08

Sheboygan Lighthouse Storm Wave

Archivo de imagens #27

Quadras Açoreanas

O vento uiva
de culpa
à noite
nas grutas.

Eu te asseguro
filho meu
não é bom auguro
se chora o breu.

O mar ruge
é monstro imenso
imensidão sem luz
cemitério imenso

se por feitiço
ou encantação
se por enguiço
ou tentação

teu corpo flutuar
quiser perdido
entre as ondas do mar.
não lhe dês ouvidos.

Faz-te mouco
e desentendido
que só um louco
não vê o perigo

O choro que escutas
não é humano
lá entre as grutas
do mar insano

é o sono profundo
do Leviatã
Respira fundo
Aguarda pla manhã

Mário Mosca

TS Eliot

A música da poesia não é coisa que
exista separada do seu significado.
É claro que poesia alguma corresponde
exactamente à linguagem que o poeta fala e ouve;
mas ela deve manter uma relação com
a maneira de falar da sua época.
A música da poesia deve, portanto,
ser uma música latente na fala quotidiana
do seu tempo.

No Totem

No Totem a tasca mais carente do distrito
sentados já sem assuntos
quando as horas são mais lentas
enregelando sob o avançado de alumínio
meditávamos no bando de carniceiros
escondidos entre os pinheiros
que envolvem a região
que atacam e matam
por meia dúzia de presuntos
esfaqueiam e esquartejam
sem lógica aparente.
Temos medo de ir dormir
pelo menos aqui
morreremos todos juntos.

Orlando Tango

A Morte do Reino

Neste trono de carne
entre almofadas de carne
envolto em solidão
bebendo o silêncio
estabeleço a ordem neste mundo
só dependo deste cordão
do universo eu sou o centro
mas quem me afogou neste lago profundo?
Ai sinto agora puxarem-me os ossos
Adeus oh Reino Amniótico!

Lúcio Ferro

Lenga-lenga das vogais

Nem imaginas a Paz
que dá
não ter um segredo
se quer
a esconder ou encobrir
amigo.
Ter alma de forte rocha
exposta
que o vento em vão empurra
- Segura!

Maria Vouga

19.3.08

Novos Ditos Populares

Pá na terra,
espírito berra.
Cheiro a morte,
garra forte.
Cova aberta,
alma desperta.

Maria Vouga

Decadência Urbana

De noite perseguido no
escuro pelo marulhar indefinido
das avenidas.

Lembranças que passam sem
deixar rasto mas
sujam o fundo dos ouvidos até
à insensibilidade.

Dispersos arrabaldes que
fogem à cidade mãe e
dormem à noite,
cada vez mais longe, filhos
dispersos, até ganharem
independência lá ao
longe onde criam as
suas próprias histórias.

Do ar vê-se: escondem-se nas
matas fronteiriças.

Triste da alma arrombo o
primeiro chaço que encontro,
decompondo-se com
um murmúrio surdo debaixo
de um velho lampião intermitente.

Zé Chove

Família

Archivo de imagens #25

Selado

Selado com ferro em brasa,
No vácuo escuro das masmorras,
Retorcia-se mole e gordo,
O mais gigante demónio.

Flutuava no fogo líquido,
Esperava com calma através dos milénios,
Trincando o ar desejoso,
Do dia do Apocalipse.

Zé Chove

13.3.08

A Lua

A lua essa gorda rançosa

Não me larga

nem aos peçonhentos sapos

que nas valas húmidas acasalam

e nas ruas escuras da vila

ainda há luzes nas garagens

e dispersas ainda se ouvem

gargalhadas reflectidas nas chapas

de alumínio das fachadas


mas o grosso é silêncio

evolado dos becos e baldios


não sei o que espero

nada me dizem os meus passos

não sei o que quero


Quem me guia é a lua

essa gorda rançosa

que não me larga



Filipe Elites

Fio Dental

Ficava sempre alarmado

quando o tio cagava sangue.

“Será que vai morrer?”

Como a alma o sangue não

deve ser perdido é

vital.

“O sangue é vida”

pensava.

E agora que perde litros

e litros ao lavar

os dentes

sente

C'o tio deveria usar

fio dental entre as nalgas.



Zé Chove

Switzerland, 1900

Archivo de imagens #24

27.2.08

Monte dos Vendavais

Conquistaste mais um forte,
da minha fraca vontade.
Amor sincero, afável,
todo teu te entrego.

Abafo o teu corpo descoberto,
solto a sombra do meu desejo,
cubro a brancura pura da tua face,
de imundos beijos negros.

Faca dilacera o teu peito,
sangue fluido imundo misturado,
no podre cancro do meu seio.

Na palidez enferma da tua pele,
surge o vergão vermelho infamante,
sou mau toquei-te de morte.


Diniz Giz

Paixão Exótica

Cães ladram na pradaria,
anciãos entoam lamúrios milenares,
no alto de minaretes na escuridão,
as estrelas chamam por ti.
A tempestade do deserto dança,
sou levado pelas dunas.
As formas da areia lembram o teu rosto.
guitarras ciganas fogem na estepe,
fogueiras derretem a neve,
pandeiretas imitam o ritmo do teu coração.
Nos altos penhascos de granito,
riachos frescos soltam neblinas,
e no meio de castelos em ruinas,
ecoa o teu nome nas colinas.

Carlos Marques

20.2.08

One Word More

Rafael made a century of sonnets,
Made and wrote them in a certain volume
Dinted with the silver-pointed pencil
Else he only used to draw Madonnas:


These, the world might view – but one, the volume.
Who that one, you ask? Your heart instructs you...
You and I would rather read that volume...
Would we not? That wonder at Madonnas...


Dante once prepared to paint an angel:
Whom to please? You whisper «Beatrice»...
You and I would rather see that angel,
Painted by the tenderness of Dante,
Would we not? - than read a fresh Inferno.


Browning

15.2.08

Serviço D

Serviço D
senha 31
mesa 2

trucum, trucum, trucum

"Estou aqui para dar resposta notificação"
__________Baby, can I hold you ton...
"sente-se, sente-se"
truc, truc, truc

Open space ortogonalizado ao meio
com cabinets vermelhos
escondidos
milhões de cabos
no falso tecto e no falso
chão

tiruli, tiruli
:::::::::::chuk, chuk,chuk

"si,si,sim, eu sei que você..."
protocolo 1058 - "Já analisámos a sua situação"

Serviço B
senha 12
mesa 3
Através de janelões modernos
a calma do jardim
vetrx
carregado de sinais
tou,tou,sim
dum estado novo - "Lucinda, da minha parte tá
tudo ok!"
troctroctroc
________vvvvtrusch lick

"Desculpe... podaguardarnasala?"
tiruliruliruli
"Já o chamamos"
flopfloskflop
___-Já enviamos à DARPAL?
huuum quistá seu comprovativo"
block.block.block
Zé? Zé? Não estou a conseguir aceder ao sistema..
CONTINENTE - ONTEM ORGIIIA AMANHÃ! (cantado)
flap,falp,flap
a cloud of sounds
souttxtx my brain
from ear to earliililil
"pois, agora tem de aguardar..."
@160 BPM
Talvez problema na base de dados
Garrafinhas com água
Já ligaste pró Back...


Orlando Tango

A Arca

A Arca,
de Aarão o bastão,
o maná,
e as tábuas da lei.
De prata,
e ouro os querubins.
E Deus,
cheio de misericórdia,
de pés
sobre o propiciatório.

A Arca
têm-na os etíopes
de éfode
vibram como David

Oh Arca!
és tu minha mãe?
A Lei
derrama-me no coração.
O Bastão
Abre-me o caminho seguro.
O Maná
que me encha de força.


Madalena Nova

Torre em Ruínas entre Rasteiro Matagal

"Desculpe lá... Vendem passarinhos?"
"Oh'mem pens' qu'a'gora 'tá d'fícil d'encontrar?"

____Os pesitos gordos forçando
____As sabrinas douradas
____quero morder-te aí mesmo
____Nesse bifinho transbordante

Filipe Elites

Poesia Popular Protuguesa

Nem imaginas a paz
que dá
não ter um segredo
se quer
não gruta bafienta,
cinzenta,
ser rochedo exposto
ao sol
e à tormenta

Maria Vouga

8.2.08

Balaão

22:22
God displayed anger because Balaam was so anxious to go,
and an angel of God planted himself in the road to oppose him.
Balaam was riding on his donkey, accompanied by his two boy servants.

22:23
When the donkey saw God's angel standing in the road with a drawn sword in his hand,
the donkey went aside from the road into the field.
Balaam beat the donkey to get it back on the road.

22:24
God's angel then stood in a narrow path through the vineyards,
where there was a fence on either side.

22:25
When the donkey saw God's angel,
it edged over to the side,
crushing Balaam's foot against the wall.
Balaam beat it even more.

22:26
God's angel continued ahead of Balaam,
and he stood in a narrow place,
where there was no room to turn right or left.

22:27
When the donkey saw God's angel,
it lay down refusing to budge for Balaam.
Balaam lost his temper,
and beat the donkey with a stick.

22:28
God then gave the donkey the power of speech,
and it said to Balaam,
'What have I done to you that you beat me these three times?'

22:29
'You have been playing games with me!' shouted Balaam at the donkey.
'If I had had a sword in my hand just now,
I would have killed you!'

22:30
The donkey replied to Balaam,
'Am I not your old donkey? You have been riding on me as far back as you remember.
Have I ever been in the habit of doing this to you?'
'No,' replied Balaam.


22:31
God then gave Balaam the ability to see,
and he perceived the angel standing in the road,
with a drawn sword in his hand.
Balaam kneeled and prostrated himself on his face.

Dos Números

30.1.08

25 Melhores Álbuns de Música de 2007

Top 25 Albums of 2007

1 - Mirah & Spectratone International – Share This Place: Stories And Observations
2 - The National - Boxer
3 - Beirut: The Flying Club Cup
4 - Radiohead - In Rainbows
5 - Churning Strides - Thee Stranded Horse
6 - Jesca Hoop – Kismet
7 - Panda Bear - Person Pitch
8 - Robert Wyatt - Comicopera
9 - Spoon - Ga Ga Ga Ga Ga
10 - Kanye West – Graduation
11 - Various Artists - After Dark
12 - Marissa Nadler - Songs III: Bird on the Water
13 - Burial - Untrue
14 - LCD Soundsystem - Sound of Silver
15 - Liars - Liars
16 - The Fiery Furnaces - Widow City
17 - José González - In Our Nature
18 - Rachel Unthank & The Winterset – The Bairns
19 - Laura Veirs - Saltbreakers
20 - Cowboy Junkies - Trinity Revisited
21 - Crippled Black Phoenix - A Love Of Shared Disasters
22 - Andrew Bird - Armchair Apocrypha
23 - Feist - The Reminder
24 - Dinosaur Jr. - Beyond
25 - The Veils - Nux Vomica

-A Bem da Nação-


Paulo Ovo

27.1.08

Cliffhanger


Pink Floyd

Tinha dificuldades em conter,
Os seus fluidos.
Acordava ainda noite ia a meio,
Com calafrios
No pescoço ensopado
em líquido amniótico.
Lacrimeja profusamente
Só de pensar em olhos.
Antes de apertar os ossos,
A um companheiro
Limpa o suor das mãos
Ao traseiro
Vive todo ensopado,
Chega a casa do trabalho intestinal,
E as meias marejadas de bílis.
E nos dias de Verão
Todos os regos e valas do seu corpo
São verdejantes e húmidos vales
De denso viço
Onde escorrem salgados rios
De linfa e células mortas.

Paulo Ovo

Biblioteca de Alexandria

Armazéns repletos de textos
E imagens sentimentais
Arderam ao sabor do vento desvarido
Com um ardor apaixonado
Tal espectáculo foi presenciado
Por um bombeiro reformado
Que por ali andava
E lá se foram:
“Os choros lancinantes no
ventre do dragão suburbano”
e “Os lamentos da viúva ecoando noite dentro
Na barraca abandonada nos baldios”
Em labaredas castanhas
“O escritório do médico louco
Uma rosa murcha e um calendário de 74”
E “A princesa infante morrendo à fome
Depois de trucidado o seu reino”
Lançando flamas azuis
“Flutuava morbidamente entre uma histeria
eléctrica e o desânimo mais cavernoso”
e “Os leões quando atacam aos pares são mais perigosos.
As gazelinhas gostam de pastar juntas”
Despedindo chamas vermelhas
“The suicidal ratio keeps rising
But why?
There are no more noble causes!”
E “Bebi demasiado amor fora do prazo,
Só desfaço a árvore de Natal em Agosto”
Ardendo em grossas línguas de fogo negras…

Marco Íris

Como Vómitos

O nosso governo soltou todos os criminosos,
Desde que lhes pagassem bem.
E assim as ruas voltaram a encher-se de alegria.
Alegria de traços-contornos
Negros e grossos
Pintalgada de cores esbatidas e mornas
Como vómitos.



Dionísio Pinásio





Novo Projecto do Sócrates



Espelunca

Esta espelunca
É o saguão do mundo
Uma supressão infecta
Onde resvalam todos os pategos
Que nem à gravidade resistem.
Deixei-me rebolar até este sepulcro
Já lá vão 17 anos,
E comigo toda a minha família,
Como nos baptizados
Proto-cristãos.
Os meus filhos nunca viram a luz do sol
Cresceram miúpes.
Eu vejo, o que me faz sofrer ainda mais.

Memories

Memórias não me deixam dormir
Flash de holofotes
No aeroporto adormecido
Há muito abandonado.
Partiste no último Charter
Sem qualquer destino.
Retive as tuas bagagens no hangar.

Manuel Bisnaga

Biscoitadas #1

Desvarios Assonetados

Subiu e desceu as escadas levemente,
Agitado sem saber bem o que procurava.
Coçou a cabeça tentando ter alguma ideia,
De cotovelo apoiado no corrimão fitou fixamente,

A luz na porta do seu quarto nas águas furtada.
Lá de baixo vinha o cheiro dos sofás velhos,
E o bichanar da t.v. notívaga de sonos,
Suspirou profundamente antes de decidir sair.

“Talvez lá fora haja alguma coisa para fazer”
Quem puxa é o corpo, embrutecido pelo tédio.
Puxou com força o cabelo para trás,

Deixou o frio lamber o seu nariz,
De mãos nos bolsos cantarolou até ao bar,
Mais próximo.
De novo o calor,
Ar gasto e álcool no sangue.
Saiu de ouvidos zumbindo a metal,
Os últimos carros abandonaram o parque acimentado,
Algo no coração ainda não se sentia satisfeito.
Deitou-se na relva e chorou ardendo em desejos,
De não sei quê que lhe dilacerou o peito.

Mário Mosca

Brothers

de dor
pois unidos jamais ficarão.

as doçuras loucas
o pranto em esperança
do irmão orgulhoso e cego de amor.

vêm descer o outro,
sujo com langor
a morder-lhe as esquecidas chagas
como um cão.

e os dois assim de novo
esmagados pela vergonha,
fedorentos da imundície morna
que tragaram
resfolegam doidos e sedentos da paz e alegria que mataram,
e berram em silêncio.

mordem os lábios contra si mesmos
infligem-se a si próprios dor
e querem começar de novo
porque o demo já se satisfez.


Lúcia

Tédio Melancólico

silenciosa e morna
tremia-lhe o peito agoniado
as unhas cravadas na almofada
de joelhos no tapete ao pé da cama
quando olhava pela janela do meu quarto

pela janela do meu quarto
distingui ao longe o ladrar dos cães
cigarras no silêncio
harpas de desejo
o céu enfermo e triste
sem saber vontade morta
sem centelha
com sol brando morto
e sem paixão ou afazer
que me mova

o céu roxo
silhueta do carvalho só.

Diniz Giz

21.1.08

Arrábida

Sei duma chafarica lavrada na rocha
Numa falésia à beira mar
Sou sempre bem recebido
faça chuva ou faça Sol
No pino do Verão
camisa desabotoada
chanatas
e calção

sentado cabeça e o peito à sombra
contemplando o oceano ao Sol
em toda a área se sente o cheiro
mistura de assados, acendalhas,
sargaço e alcatrão
e das crestadas urzes da serra ao Sol
enquanto espero pelos chocos
a imperial gelada e a pele estala
ao longe, cegam-me os reflexos
do mar nas ondinhas feitas
pelos barcos de pesca ao Sol

Nicolau Divan

Spazzatura III

Língua gretada e pustulosa
orgulhosa e cheia de sangue

Fuça de porco entumescida
roxa e saturada de micro-veios palpitantes

Gorgulhos na virilha-assada ______sorolho
lodaçal de pus onde cândidos bambis
dessedentam a sua sede de saber

o mar enchendo com fúria as covas e os poços dos rochedos

Oh anormal engoliste uma granada
Boca do Inferno

Amendoeiras e rouxinóis

Craquelette de caganeira
dissolvendo-se em lagos azuis de ácido

conversas bafientas de gordos rosados
sob as dificuldades da vida no caminho pró trabalho

distanias tristanias dinastias
D Afonso Henriques
D Sancho I
D Afonso II
D Sancho II
D Salazar
D Soares
D Solares
D Sanzala
D Sancholas
Infante=Não Fala

Choros lancinantes de ciganos
Bafos de mijo seco
napron de bosta escafiada
bajulador oleoso
laranjas podres nos sovacos
saliva sulfúrica
e cáries barradas de merda
sopa de pescoços de cadela jovem
e unhas de galo
risos temíveis de africanos treinados para matar
há muito sem nada para fazer
O escroto assado
incisão da crosta – antro de larvas suadas
dançando ao som da sanfona
ralos repletos de esterco empapado
barrigana com pregas exalando chulé
podridão fecal fétida
charuto ensopado de vómito bilioso
criatura de dois tóraxes
e ente os dois uma cordilheira óssea

Toscano Tucano Texano
Melíade Dríade
Vidro Cinzazul fulvo
Noigandres – d'enoi ganres

Almofadas de cinza de tabaco
e mijo de gato
alcatifa com ácaros da geração passada

Jezebel Crown
Diadem frown

O poder da novidade
a capacidade didáctica da experimentação
para ele a experiência e a busca constantes
de algo mais belo funcionam e têm bons resultados
...as cores podem ter vários significados
dependendo fundo ao qual se sobrepõem...

Quando estamos desesperados
falamos com uns anjos
e deixamos que a melancolia nos invada
não somos nenhuns santos

Lavramos o solo
em busca de novas palavras
em vão busquei consolo
em terras de mal dizer e escárnio

::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::
Em vão fugi do teu olhar
só me deixou mais intrigado
meu coração não parou de saltar
na dúvida se de mim terias gostado

mas em vão voltei a olhar
teus olhos resguardaste em mistério
e uma ânsia louca de os beijar
osculare oculus tuus desiderio


como o amante pressente
no escuro a sua amada
como vê o escultor no ar a forma
como vidro visto debaixo d'água

Não consigo coordenar as duas mãos
não tenho um comando central
os pés não seguem o rumo
que apontam os olhos
.................................................................
A levada fresca d'água
com fundo de areia purificada
nas margens canaviais de vento
em que se escondem as rãs

e na curva onde transborda a água
está deitada Ofélia
à sombra do grande carvalho
de olhos semicerrados

Quem conta a sua história?
Será prazer ou sofrimento nos seus olhos?
Será que espera alguém?

Será que dorme?
Será louca?
Estará morta?

:::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::
Cajarana
salafrário
rançoso
Carnocho
crápula
cafageste
judiador
usurpador
calinas
bisnau

Oh ignorância opaca
-O homem é racional?
“Hei-de interromper os meus cálculos
a descer para mastigar uma fatia do cu do porco?”
Acabe com o apetite
e destrói a humanidade!

Zé Chove

16.1.08

Aquecimento Global

Archivo de imagens #19

Spazzatura I

Imagismo-vorticismo-monólogos dramáticos
personae-máscaras-veritate-misticismo

PJ - Poetry Jockey
Copia, inspira-te adapta toda a poesia existente.
Recauchuta ideias e sentimentos
provocados por outras formas de arte.
Mimesis da mimesis – a cavalgada final

Ceausescus
Ionescus
Gestos bruscos
simiescus
Jorge Buescu
Capelas de afrescos
Textos cheios de arabescos
Arroz de legumes frescos
misturado com restos

We don't need tha key we'll break it

Memória falha a cada passo
perdido na sala de jantar
deserta noite de Natal
em silêncio puro silêncio
violado, pela sereia da ambulância

Aqui temos toda a casta de negros
este é quase verde o outro é quase azul
este com cabeça de apito, este com cabeça de tamanco,
este cheira a catinga e o outro a Louis Vuitton

Somos totalmente livres
Podes escrever qualquer barbaridade
juízos temerários são bem-vindos
emporcalha o nome dos ministros

Sarkozy ne rime pas avec Bruni

Mas acautela-te dos maus espíritos
“eles” podem dar-te um corpo novo
mas temo pela tua alma
esventram-te o corpo mas não se compram baptizados

“Your mother is dancing outside
with spirits
her eyes are vague
the hair and clothes are wet”

não confundas o sinal de partida do metro
ou a gaita do amolador
nem sequer a merda do despertador
com as cornetas do Apocalipse

Zé Chove

Spazzatura II

A inobservância dos rituais conduz à lassidão

Danças com equilíbrio das tranças
estão os músculos em tensão
o contraste do negrume e os flashes
e posas toda a sensualidade sobre as botas
estático suspenso no teu olhar enigmático
Frenético frémito eléctrico

Música prós fachos
lailarós

Agobiado
“Chora sobre o meu ombro. Confessámos.
E mais certos de nós, mais um do outro,
mais impuros, mais puros, nós ficámos.”

Todas as noites sai à conquista do mundo
evolada mansamente das águas mansas do mundo
a neblina esconde tudo num torpor profundo

Lábios plúmbeos
bombeando o sub-bass
undertones sob a lama
bubbles

Flávia você não falha
é flecha de folha e farpa aguçada

Oblongas nuvens sem fundo
onda a banda dumb abandona a monda
passam Almonda e a Brandôa
uma bimba bambola a bunda
bondade e alabanza
lambe o fundo do balão de brande
laudanum furebundo
embate brandamente a onda ao fundo
and bend down oh obnubilado
Ana não sondas o anel
no meu anelar?
não te lembra nada?

“Com asas quer ele, como com chamas,
ficar diante da tua face sombria
e quer, à luz clara delas, ver
se os teus cenhos escuros o condenam.”

Visitou-me o mafarrico
em sonhos
sentado no escuro do passeio à chuva
adensou-se com um sorriso
que alentou a minha vontade
de certeza confiante

Tentei fixar o seu rosto
já só lembro o esgar
a normalidade pacata
o piscar do olho
quando me viu a afogar

“Dá-me, ó meu Deus um temor filial, que me faça reagir!”

A máscara do leproso
não lhe disfarça o fedor
cipriotas-agiotas-poliglotas
queimem as gaivotas

Wash my back
avec savon de marseille

Zé Chove

15.1.08

Gangsta Rap

Não tens medo da vizinhança?
Nunca te degolaram ao virar da esquina?
Nunca te enfiaram lâminas pela retina?
Não te batiam quando eras criança?

E não tens medo da sociedade?
Nunca foste esventrado
em plena praça pública com um machado?
Nunca foste oprimido pela autoridade?

E não tens medo dos médicos?
juramentos à pressa de hipócrates?
que te anestesiem e envenenem com remédios?

Não tens medo do estado?
do Mário Lino, a ASAE, Loçã e o Sócrates?
Não tens medo de ao sabor da lei seres violado?

Lúcio Ferro


Descansa a vista #14

9.1.08

Week thoughts

-Week thoughts-
em todo o lado

Ontem não tinha nada a agradecer a esta vida
bastou um passeio para tudo mudar

___e não te esqueças de tomar os comprimidos
se sempre vier a sensação de náusea

O petróleo entranhado nos ninhos das gaivotas
mashed potatos and stuff like that
“Elisa, de jêto manêra”

'sta noite
(ao vol)tar do trabalho
labuta, dura, labuta
sumário mental
passado em contas
Le chiffre du jour

Esta casta de mulher foi descontinuada
posta for a de circulação

dá-lhe chumbo, dá-lhe fio

___e s'a tua alcova aquece como um inferno
___podes ter pesadelos

arte e cultura
__arte e usura
carne e sutura
__bife e nervura
alma em secura
__horticultura
ultra levure aaaahhhh

polígonos de laranja e preta sombra
corbusiana luz engripada

sequências lógicas de grafittis
__discotraxx nos ouvidos
pensamentos em electroclash

Existe uma razão que te confirma
mais que as outras

__e fatias, lembra-te são só fatias
fininhas de fiambre

crème analgésico

metro-cidade veloz
berra com estrépito
sem parar nas estações

preta de cabelo cristalizado em gel
vestido às bolas
pérolas de plástico amarelas

Nijinski o grande bailarino
___________ficou louco
andava nos alpes sozinho
e ouvia Deus

Eu fui à terra do bravo
brado também
brado também

Um sorriso judicioso de estrela que
___brilha na noite
escura do meu coração que
___é teu

__testosterona
Manifesto

“Dar mais importância aos sentimentos
e imagens que a música desperta
que ao sentido das letras.
Ir incorporando...”

___e a pedra esconde o opus incertum

___e não é uma história
Tzigane and the ebony in dark conspiracy
____já no quarto
_O sol em si
__O dom tem dó
_____e em sonho
Um pião luminoso – chorando estará
pois um dia não soube cuidar
_________e olhando pela janela do trabalho
vi esmagarem o melro sobre a velha mesa da cave
donde se libertaram vísceras de humidade noturna
e insectos do húmus
_________e avistei
Aperta-o-papo a mais um boss da noite
quem te dera abraçares máfia
A pomba moribunda geme toda a noite
dentro de caixote do lixo em sacos das compras embalada
________e novos elementos arquitectónicos
poças do grego no paredão lambidos pela água do mar
“Routine doesn't amaze me
but strokes me all the time”
______e todas as noites sangro das gengivas
____e acordo de dentes coagulados
___e na retrete
topaz...amarelo...laranja...
_____the scale should be
________rosa, carmesim, vermelho
Ezra nunca será velho

_______e olhando o Quiosque
.....50 anos atrás – estamos em 2008
...30% da Turquia era cristã
..Capadócia monumento morto
lar do vento e do turismo
_______e extremamente imenso
“a poesia não consiste
___em partir as frases dum texto
em prosa em trechos
mais pequenos
__para isso temos
____as colunas do jornal”
_________E flutuando na internet
..Organizemos uma festa em Kouloon Walled City
miasmas de fritos e roupa lavada a secar
__________E o nome do rato é, é ,é Remy
__sex, sex, sex ...sexta-feira completada pelo PC.
Aos 13 anos descobri a cura prás constipações
andar sempre agasalhado
____Three girls circle overhead.
I am coming Lord; I am coming, for the door to Thy kingdom lies
_not at my head but at my heel.
__________Call me under.
________& Prepareth thee my way
____________E passeando à noite na rua
CUIDADO! Se a cama aquece muito
tens pesadelos
__________e acordei a chorar angustiado
adoro o teu cabelinho molhado
a cheirar a johnson's
acorda a minha infância
_____faz pouca espuma – é certo,
mas __tem um cheirinho...
and abuse of cosmetics
_________e junto ao balcão
.......Manjericão e Rúcula
fleumas na passerelle
_________e no metro
guinchos ululantes
de baleia nas escadas rolantes
____Galeria-oca-tíbia
_Um bebé sorria todo lambuzado de chocolate
_________e fui imaginando
as relações no seu rosto
entre pálpebras – olhos e maçãs do rosto -
nariz era idêntica
à observada nos babuínos
ou seja, tinha um aspecto selvagem.
____Olhe depois arrume-me a secretária
___Olhe depois não se esqueça
______Olhe não se atrase
___________E no Sábado à tarde
_______aura pétrea
______despida
_____austera
____mística
galerias de gélida palidez
paredes de escovado calcário
impermeáveis ao cheiro da chuva lá fora
devido ao poalho microscópico
aquela que fica entre os dedos e deposita nos pulmões
a pele crispada de frio
os pés agrafados de frio
dolente et lorente lamentatio
ecoando e guinando no calcário


Orlando Tango
Descansa a vista #13

6.1.08

Jardim Português

Os muros sombreados, a água calma e o sol devorador, a intimidade e a mistura entre trabalho e lazer. A mata, o pomar, a casa escondida com o jardinzinho de recepção em frente, a seara de novo envolvida pela mata, os caminhos claros curtos de terra batida, o cantinho das ervas aromáticas e medicinais o recanto predilecto das senhoras. O pequeno coberto de sombra fresca o banco corrido e o som da água a pingar.

O jardim é consciência da paisagem. É vislumbre do belo através dos olhos de um povo. O nosso jardim é pleno de intimismo, franciscano na austeridade. Criador de oportunidades de encontro. A natureza é actuante não é paisagem.

Conheces o país onde floresce o limoeiro?
Por entre a rama escura ardem laranjas de ouro,
do céu azul sopra um arzinho ligeiro
eis que se ergue a murta calma, olha o altivo louro!
Conheces?
Oh! Partir! Partir!
P'ra lá contigo, Amado! oh! quem me dera ir...


As paisagens em Portugal são ricas, diversas, imbricadas, promíscuas. O desenho dos nossos jardins é rico, desregrado mas não aleatório, é caprichoso. O nosso jardim é ser e estar. Juntamos o útil ao agradável. A atitude contemplativa perante a paisagem é de bom português. Os jardins portugueses não são para percorrer mas para estar.

A laranja é um símbolo do jardim português – sempre foi uma das nossas maiores fontes de riqueza.

O nosso jardim é chão.
A matriz da horta é transformada, evolui presa a questões práticas e as pessoas enriquecem o espaço, tornam-no agradável fazem o seu jardim. Horta, pomar e mata estão sempre presentes só a região dita as diferenças. Os espaços são separados por muros ou buxo e cada espaço tem uma porta, uma entrada. Fazemos a desmaterialização dos muros de suporte, assim fundem-se com a natureza, no sul com azulejos e no norte com sebes, mas não topeamos as sebes.

As arquitecturas de prazer são espaços de estar e usufruir. No jardim funcionam como rótulas ou elementos articulantes entre os vários espaços. As casas de fresco e os sítios para sentar.
Os percursos da água e os caminhos ligam os diferentes espaços e estabelecem eixos de composição dos espaços. Água utilizada de forma clara, calma, natural, sem teatralidades, com carácter funcional. Por vezes temos os percursos demarcados com as latadas. Não precisamos dos artefactos espectaculares dos jardins do norte da Europa cá o espectáculo é a luz do sol e a riqueza dos espaços feitos como cada um gosta...

Orlando Tango

Convento dos Capuchos

palmas das mãos nestas pedras de musgo afago o teu fôlego neste claustro oh Deus do fresco da capela me arrepia o teu sopro do teu cla...