18.10.07

“Não vás, não vás, não vás”

“Não vás, não vás, não vás”
crianças demasiado novas
O choro de mães

Neste século os homens voltam a partir

em busca de virgens ilhas
mares de liberdade

cadelas assanhadas na praça pública
rosnam estúpidas ao cruzeiro central


Tribulações, vagalhões, remoinhos sentimentais
fossas tenebrosas
calmarias pestilentas

galgam novas áfricas, novos brasis
aterram já velhos
onde está a doçura da partida?

Destroços boiam esfiampados nas margens
não conseguem atracar
Tudo são sonhos
o passado é pesadelo uma desembarcada encarnação

os remos golpeiam o mar
são portas a fechar, são portas a fechar

vangloriam-se da troca
a Costa de Prata pela Costa da Malária
Descobrem a Ilha dos Amores

Um vento laminar arrasta
pedaços de carne nas ruas
sem vida ruas sem casas
só o vento
o pó e cães escanzelados
lambendo repugnados
bifes crus
bolos de sangue
polvilhados de terra seca
revoltos pelo vento



Lúcio Ferro

1 comentário:

  1. Fiquei maravilhado com o vosso estilo. Deveriam dar uma olhada a este blog
    www.canaldepoesia.blogspot.com
    Continuem o vosso excelente trabalho.

    João Melo

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