29.6.07

Vai falando

Vai falando, vai falando, vai falando,
com teus jeitos amaneirados,
fico calmo pensativo,
falsos risos, de vaidade,
coisas fúteis novidades.
Encho peito a custo -massacrado.
Gestos ágeis bem treinados,
cores garridas clássicas.
-desilusão oh porquê?-
vou me embora e não digo nada,
talvez amanhã esteja mais alegre.
Nunca digo nada.


Filipe Elites



Mies van der Rohe - Design Friedrichstrasse 1919

Imaginarium postumum #3


De Manhã

Guitarras estridentes a rasgarem,
os meus ouvidos deliciados,
de melodias melosas escondidas,
entre sons sujos massacrados.
Baterias fortes marcam os meus passos,
pela rua emproado,
cheio de sons e ritmos,
com a força do rock.
A rasgar as filas do autocarro,
aposto que as velhas olham para mim,
novo, doido e violento
mas a loucura sabe me bem.
Os estoiros tribais nos tímpanos,
a manhã dança nos meus olhos,
mortos para a realidade,
vívidos de sonhos!

Vasco

Sinto

Sinto as pernas enlaçadas,
pelas ondas fortes e sensuais,
que sem jeito combati,
no mar bruto enraivecido,
na sua força fria envolvido,
flutuei e me ergui,
suado enlouquecido,
no lençol da minha cama.

Henrique

28.6.07

Batalha

Baterias através dos campos,
gritos urros de raiva pelo ar
o cheiro do medo a flutuar
o bombo ribomba nos meus lombos!
A batalha vai começar....

Brás

27.6.07

CC

Passeava no centro comercial,
cores luzes e beldades,
música, ritmo e olhares,
tudo se cruza neste campo de vaidades.
Vista, olfacto e barriga,
a satisfação está garantida.
Cores alegres e vistosas,
novos espaços de variedades.
A alegria prás famílias,
é o grande templo do consumo.
Sozinho sem pensar,
arrastado pelos olhos,
senti o nojo com um esgar
tanta falsidade chafurdando em prazer.

Filipe Elites

NO_TALHO

Uma criança no talho,
olhava as dançarinas pernas de vaca.
O branco cheiro de sangue,
e uma luz roxa sussurrando.
Mais um brilho de cutelo alucinante,
estraçalhando o porco agonizante.
A bata pálida e exangue,
chupa a vida da carne.
As velhotas distraídas,
assustam-se falsamente com o estoiro,
e saem aliviadas largando o oiro.
Espantado o pirralho,
com a cara esmagada na vitrine,
sente o fresco na barriga,
diz sem vergonha,
olhando os músculos do talhante,
“mãe dá-me uma faca daquelas”.

Zé Chove

Onda

As gaivotas piam na manhã.
Um mar de prata,
estilhaçado em mil brilhos,
força descomunal,
enche o peito gordo,
onda azul rebenta-me o corpo,
e enterra-me bem fundo,
na areia quente e fina deste mundo.

Wilson

Serra_2

Caminhando em silêncio,
na floresta densa.
Os olhos piscos dos galhos.
Arfamos todos de cansaço.
Piadas soltas sem embaraço.
Risos amigos sinceros.
As mesmas dores as mesmas alegrias.
Juntos agora
se me pedires,
eu digo para sempre.

Paulo

Templo do sonho

Arcos terrosos de argila,
rasgam o céu azul e soalheiro.
Um templo sagrado com piscinas,
d'água pura e fria, que limpa
do pó o estrangeiro que se aproxima.
Jaz na sombra do meu sonho.
“Já lá fui duas vezes, e tu?”
pessoas vestidas de branco
um som límpido
na rocha pura reflectido
um mestre de braços abertos
uma cruz alta bem ao alto
e sorrisos de paz e alegria
só em sonhos...

Vasco

Ai

Digo um ai sofrido e só
soprado da minha alma
foi a última palavra
guardada ainda no peito
tudo brilha despido
cantado pelos grandes poetas
mas dentro eu levo dentro
um ai escondido e pobre
à luz do dia o choro
entre as paredes do mundo
meu ai doce e profundo
que a ninguém vai alegrar
como é escuro e sujo
esse ai que eu alimento
vou guardá-lo e pra já canto
as belezas gastas num lamento.


Ivo Lascivo



Imaginarium postumum #2


LOUCURA_3

Trespassado pela dor,
Inquieto e inconsolável,
percorria as ruas da cidade.
A lua branca no seu alvor,
conduziu-o sem maldade,
às muralhas do castelo.
Trepou a uma ameia,
olhou os telhados da aldeia.
O sino soou só e belo,
seu pai veio lhe à memória.
Ouviu passos frios no empedrado...

Zé Chove

Maria

Abraçou-a com força
de alívio e amor.
As batalhas perdidas
a vontade de não falhar.
Os membros já fracos e sem fulgor.
A esperança louca
de servir um só senhor,
arrastava-o doido.
Morto ou vivo,
ou com o corpo moído,
ou a alma sem fervor,
quando parecia que se ia,
que definhava e morria,
a mulher mais bonita e pura,
a cheia de paz e luzidia,
ao seu filho desamparado,
oferecia uma mão forte e segura.

Zé Chove

Serra

No meio do frio,
os pés enregelados.
A vontade de vencer,
de não ser submetidos.
Uma oração que brota aos lábios sentimental,
mas sentida verdadeira.
O corpo, já não o sente
atravessa os obstáculos rasgando a carne.
Não está só e o fim é bem claro,
só assim aceita a dor.
Não vai sozinho,
todos juntos sorriem,
porque não é a batalha mais importante,
mas sentem o gozo de vencê-las todas.
A lua brilha gorda na noite clara.
olhando para o lado o companheiro sorri-lhe.
Para trás fica o abismo negro da serra já tomada.
O cume não se vê, a densidade do mato não o permite.
Por fim chegamos o descanso merecido.

Paulo

Love song

lett's go to party yeah
walkin down the avenue
all the people lookin after you
your smell floatin over thou
i cant wait to meet you babe
your leather jaket and your hair
make the other girls sight
but im the only one that gonna kiss you yeah
last afternoon by the river
the sundown shinning throu
kissed your feet and swear i love you
you said you love me to

Mário

Doors

flui rio flui
leva de novo o gelo

Mário

Beatles

ai amor ai amor ai amor
meu amor meu amor meu amor!!!
ohohoohohohohohoho
é a luz nos teus olhos......

Mário

DOIDO

O malandro andava desvarido, uma coceira louca rebentava-lhe o corpo num desejo agoniado de fazer qualquer coisa. Desperto e cheio de força, andava de um lado para o outro como um pêndulo sem sair do mesmo sítio. Olhou atordoado à sua volta, estava tudo arrumado... Tentou lembrar-se de alguma coisa urgente, nada. Pegou na caneta e voltou a posá-la um pouco mais à frente. Começou a vestir o casaco. De soslaio reparou que estava a chover. Procurou em vão o guarda-chuva. Voltou a tirar o casaco irritado. Ainda são 10:30 já tomei o pequeno almoço... Não sabia o que fazer. O seu coração estava meloso, os olhos atentos, os pensamentos frenéticos... Há noite a luz era atraído pelos néons, o cheiro despertava, as ânsias cravavam-lhe as unhas no estômago e arrastavam-no pelo chão. Os amigos sempre foram um apoio à busca pela felicidade. Todos nos rimos e os corpos jovens criam uma energia incontrolável de dínamo espontâneo. A razão não está sempre do nosso lado. Por vezes é irónica engana a consciência fraca e o demónio ajuda.
Eu detesto-me a mim próprio? Direi: “que nojo é este?” ao pensar em mim.
Quando o corpo se exalta e empina também o espírito embarca. Oh que ironia, nunca vi tanta falsidade como quando nos enganamos a nós mesmos...
Pedi com insistência e lá me beijaste na boca – a minha vida está escrita nas músicas, quando as oiço recordo os tempos de outrora – que doce é um beijo na juventude.
Medo de novo. O calor intenso e censurável. Tanto prazer, tantas emoções novas. No dia seguinte ao nosso encontro não fui capaz de dizer que gostava de ti. Agora olho para trás e não sei dizer porquê. (talvez por orgulho... que estúpido). Talvez voltasse a fazer o mesmo. Bem vistas as coisas deve ter sido mais uma intervenção divina.

Zé Chove

Pedido

Por vezes tenho receio de ser apanhado quando estou a ser mau, e no entanto sei que me vês sempre. E se me apanharem? Que direi? É melhor fazer a porcaria com alguma desculpa preparada.
Gostosamente me colocarei de joelhos e farei o que me pedires. Aqui junto a este abismo precipitado sobre o mar negro. A lua brilha no céu límpido e frio. Pede-me qualquer coisa agora. O silêncio e o vento frio... Já disseste... Amanhã voltarei para te pedir a vida eterna.

Lúcia

Apaixonado

Não faz sentido... Às vezes fazemos coisas que não sabemos trazerem a tristeza. O pensamento é vago e assim é agradável, o corpo é concreto e pode sufocar a razão. O coração levou-me até ao pé de ti e agora quer submergir-me nesse mar profundamente azul, cada vez mais escuro, até ser negro, tépido e refrescante ao mesmo tempo, cheio de brilhos falsos e cores ondulantes. Distorce a forma das rochas e criaturas contundentes e ferinas.
Sento-me ao pé de ti como uma criança bem comportada, excita-me qualquer coisa mirada pelo canto do olho, assim de esguelha. Agarro-me a ti e escondo a cara no regaço das tuas saias cheirando a lavado. As tuas mãos ainda cheiram a cebola do almoço. Repugna-me o cheiro da cebola, mas os teus almoços são tão bons...
Deitado na cama fixo o tecto, as persianas filtram a luz alaranjada dos lampiões noturnos.
A sensação do novo sempre o deixou maravilhado. Sabia que tu me chamavas e exigias a minha presença junto de ti.
Sou um apaixonado – melodias novas, ideias, pessoas, aventuras novas. Tu pedes sempre um amor renovado, um Amor mais Fiel.
Dias estranhos. Vamos mudando, endurecendo. Temos tendência para enraizarmo-nos. Para as crianças tudo é novo – por isso os seus dias são tão longos... com a idade passamos a decorar as respostas.
Por ti, pelo amor que te tenho, quero despertar em todos, o amor por ti.

Lúcia

Verão

Às vezes sonho com o Verão. O Sol no branco cúbico das casas, o som de guitarras que se escapa pelas janelas, a terra castanha e seca, pó, o mar azul forte a brilhar ao fundo e um intenso cheiro a sargaço.
Já as noites, abafadas, carregadas com o cheiro dos amores-perfeitos. Comida fresca e mulheres frescas...
Ficava sentado na praia esmagado por um torpor lonzo, de olhos semi-cerrados pensava em ti.
Depois o Outono – o cheiro a molhado e o conforto caseiro. A vida vai-se desenhando com sensações e pequenos passos. Somos tão lentos...
O pensamento voa mais rápido, o corpo vai de arrastão. O corpo vai-se moldando, o espírito engrandecendo. A música soa ao fundo – um violino fá-la chorar, o violoncelo abatesse sobre ele em melancolia – e eu que tinha feito o propósito de não pensar no passado... Agora é tarde demais.
Por vezes dá-me nojo qualquer coisa alegre.

Vasco




Circe Invidiosa - Waterhouse


Imaginarium Postumum #1

Amor

Ninguém à nossa volta. Uma revolta interior que vamos alimentando... Oh que bom, ou melhor que boa é a incompreensão. O Senhor chama-nos sempre é como um Pai.
À medida que me aproximo do mar é como se senti-se o corpo flutuar. A humidade fresca da maresia refrescando a cara, o corpo ainda quente da lareira e do vinho. E sobretudo a negação...(que lhe fizera ainda badalando na memória)
As falésias à frente as sombras duras e frias a nébula, o vento... lá atrás a aldeia quente e parva – tudo claro – eu quero embrenhar-me no vento soltar as amarras e deixar-me guiar por ti Senhor.
Um suspiro aliviado, denso desde a base do tórax.
Por vezes ponho-me a imaginar a imensidão do universo e fico sem palavras: O universo é escuro e infinito. Quando estávamos perto da lareira o tecto não tinha fim. A fraca luz das brasas não chegava lá.
Tu pediste mais um tempo.
Para quê? Será egoísmo ou amor? Talvez uma mistura. Dois amores e o coração tenta agarrar-se aos dois.
As batalhas travam-se sempre cá dentro. O choro rebenta no peito. Senão fosse a vergonha ganias como uma criança abandonada pela mãe. E no entretanto, desposo a primeira rapariga que vir. Vou pedir-lhe que dance comigo porque estou louco de amor e o meu coração não se quer decidir.

Lúcia

Shot_1

A doçura de um beijo,
Carícias do olhar......

Vasco

NOCTURNO_1

Vagueava à noite.
Pensava. O frio entrava pelos ossos. A cidade abandonada a estas horas
A luz cor de laranja e os becos negros; os sons suspeitos; a imaginação irrequieta.
“O quê? Decerto não foi para isto que viemos cá.”
Uma solidão aperta-me o coração.
Uma melodia melancólica, como diz o outro “sinistra”, acompanha-me.
Podia ir para casa mas a noite tem uma certa magia. Estou viciado. Um mistério que nunca me foi explicado.
“A morte é ou não o fim?”
Os amigos vão falando cá dentro mas ... e a vontade de fugir?...
A textura fresca e... e alegre, pitoresca destas casas. O cheiro da noite.
À noite parece que o corpo manda – o sono, a cama, a razão – e sussurra-lhe que está tudo bem.
Oh! A doçura do prazer e no entanto que amargo no fim...

Zé Chove

LOUCURA_2

Oh! Que interessante! Um vulto negro arrasta-se pelos matagais ao entardecer – já não oiço a música – por vezes parece que se arrasta, outras que esvoaça, ou desliza sobre os densos arbustos viçosos.
Tem um aspecto fraco, sinto até uma certa compaixão, mas ao mesmo tempo sinto medo, é receio inexplicável. A distância ainda é considerável. Uma parte de mim ordena-me com força que fuja, outra deseja ardentemente ver-lhe o rosto.
Quando era criança, por vezes ficava assustado com qualquer ruído a meio da noite. Enroscado. Os olhos semi cerrados. Escuro. Totalmente imóvel. Nariz e olhos fora da coberta. Respiração suspensa. Que foi isto? Talvez um passo... E se fosse um ladrão? E se fosse uma velhota a querer fazer-me mal? Será que devo gritar pelo pai ou fingir que estou a dormir? – épocas castanhas e azuis, partes da minha vida – ficou-me marcado o cheiro a peixe de mercado ao lado de casa. Já nessa altura andava maluco. O cheiro e a luz que atravessavam os cortinados da casa da Costa.

Zé Chove

Stipe

Hoje sinto-me perfeitamente normal. Por incrível que pareça gostava de me sentir mal. Só para ter o prazer de desabafar através da escrita. E poder sentir aquele prazer de dizer mal de tudo, com uma boa dose de ironia.
O que será pior? Imaginem um grupo de cientistas cerca de trinta que se vão juntar a outros tantos para uma investigação. O local de encontro é uma pequena quinta com casarão antigo onde eles irão morar perdidos na mata a piscina e os laboratórios.
No primeiro dia para se conhecerem melhor os veteranos prepararam alguma coisa. No começo umas curtas palestras a dar as boas vindas, seguidas por um pequeno passeio no exterior aproveitando o sol que ainda se sentia naquela altura do ano. Para culminar uma almoçarada.
Stipe nunca soubera lidar com estas situações. Ele estava habituado a que quando ele falasse toda a gente o ouvia. Nestas festas em que as pessoas ainda não se conhessem bem, as pessoas degladiam-se para que lhes seja dada atenção. Todos querem marcar a sua posição e ficarem bem vistos.
Ora ele tinha a perfeita noção de como uma conversa dirigida por ele seria muito mais interessante. Aí pensou que a humildade era uma atitude preciosíssima. Que tinha de se impôr desde o princípio. Então pensamentos flamejantes atravessaram o seu miolo.
“Ah! Como sou humilde... se vocês soubessem.” “Cala-te imundo. Se abrisses a boca só ia sair esparregado, uma mistela inconsistente e morna! Bah! Faz-te um homem.”

Filipe Elites

IDEIAS...

O dia em que tudo começou a encravar.

Um homem que lia tanto que lhe cairam os olhos.

Vasco Vides

LOUCURA_1

Parecia possuído por uma loucura que o levava a agir como um cavalo desenfreado. Todos nós nos entreolhámos. Pareciam dizer: "devemos fazer qualquer coisa?"
Não foi preciso. O animal embrutecido que ele era amansou-se ao ver a nossa perplexidade abismada, sendo ele o nosso abismo. “há qualquer coisa em mim que eles não entendem” e gritou: “Hey...”.

Zé Chove

O cinzeiro

O cinzeiro de cristal em cima da mesa trazia-me recordações daquela tarde,
o tapete espesso, pouco comum em portugal, dava uma sensação de calor e conforto ,
o vinho de cor quente já servido libertava o seu cheiro ocre e confundia-se com o da mesa de carvalho velho.
"Não sabia que gostavas de cavalos... "

Lúcia

Era uma vez

Era uma vez um velho que morava sozinho
Era uma vez um homem que morava sozinho
Uma velha morreu
Uma criança queria entrar no mosteiro
Os lençóis frescos no verão
As ondas a baterem com toda a força nas rochas
O peito rasgado de dor, pela perda ou pela vontade de amar alguém
A noite misteriosa com luz laranja nos edifícios
O cheiro a maresia e os sons inesperados
O silêncio e os pensamentos em avalanche
O arrepio na espinha devido à incerteza
A raiva de criança incompreendida
O choro aliviante e doce que rasga o peito
A calma lógica do adulto
O sucesso da ordem
A alegria do velho bonacheirão

Filipe Elites


Relíquia






















Psalms 74:14: "Thou brakest the heads of leviathan in pieces,
and gavest him to be meat to the people inhabiting the wilderness."

Convento dos Capuchos

palmas das mãos nestas pedras de musgo afago o teu fôlego neste claustro oh Deus do fresco da capela me arrepia o teu sopro do teu cla...