9.9.08

Inclino

Verifiquei vários versos de dez
Sílabas assentei-as sossegadas
Lado a lado alinhadas paralelas
Bastiões de xisto ferrugem lascas

Espartilhei a natureza em talhões
Ortogonais rasguei rectos caminhos
Forçando serras urzes aluviões
Lavrei a verdade em palavras minhas

Oh preguiça que afogas os desígnios
Semeias a discórdia no império
Vacinas o terreno de cizânia

Exangue me exijo sem jactância
Inclino contra as em forças declínio
Um homem morto de alma poeta

Nicolau Divan

The Deer Hunter - 1978

Archivo de imagens #150

28.8.08

Existencialismo Crítico

Dizer o que são as coisas?
Negar a existência?
A incapacidade da definição

Que nos diz o sol do ser das coisas?
Um vórtice branco em permanente movimento
Infuso nas coisas
Já na noite nem flúi o rio
Mas divido o vento segundo a segundo
E adensa-se o frio
E penetramos a água com nossos ramos
Vivemos materialmente vivos
Mas vemos nossos reflexos
Na superfície espelhada do rio

O azul guarda as margens do rio
Definha o risco em brilho curvo arisco
Suspiralívio o novo início
Gemendo

O galho que se partiu.

Zé Chove

Mais Meditação Mística

Entro o abismo branco e o abismo vermelho
Caminho na helicoidal fímbria que os mistura
Desisto de andar resplandeço de tontura
O silêncio de ouro encharca-me de medo

Filipe Elites

Those were the best days of my life

Wittgenstein

Oi de mim!

Afasto o ombro à trajectória
Do velho em peito cheio que sai de mim
Se vou falhar encolho os olhos
Afasto meu bafo afoito se mofam de mim
Tenho a auto-estima escatimada só
Pelos escolhos da vida em mim

Nicolau Divan

Pensamento Moral

Agoniza envolta em transparência
A transparência vertiginosa da aragem
A da água que agudiza o gume
Que divide alma em lento lume

A neve é penugem que geme sob os meus pés
A flébil superfície moral
É emulsionamento do espírito

O gélido gel cristaliza o frágil gemido
Melodioso de melífluo mel flutua mole na libido
(palavra feminina?)
Abstraia a mosca do maldito caramelo
Mas não a mate
Tenha vergonha abstenha-se
Destilado em tanta clareza
Talvez seja divisado

E aliado da civilização te enleio
E escondo gemendo como as gentes
E bento me sinto iludindo transparente

Lúcio Ferro

Konrad Lorenz

Éden

Também somos esse Gan
Não tem de correr a fonte
São necessárias as árvores de fruto
A fonte ao centro do jardim murado
Ínflasse a analogia
Transborda a realidade do cálice
Enche-se de aromas o jardim

André Istmo

CIT - 23 - ELIOT

Where is the wisdom
we have lost in knowledge?
Where is the knowledge
we have lost in information?

T. S. Eliot

27.8.08

Manifesto Incompleto

Emulacionismo
Poesia-sucedâneo
Flébil

Assenta sobre o cosseno da sapiência

Superfícies

A rosa roda volteia gira e afunila
A roda a moda
As essências o ouro
O diamante
A carne ao abrir a porta
O luxo o relógio
Segundo o belo
Não serve de nada
O dinheiro o fresco
Montra de superfícies
A pela a marta a água o rímel
É tarde é tarde a sociedade
La suciedad
A novidade
Conjuro o requinte
O tesouro a foto a foto e a foto
Seguinte
Desmedidamente no mundo me afundo


Madalena Nova

Pink Floyd

Arrebatamentos Místicos

Guardo o brilho latas e vidros
Num recanto resguardado na estante do meu quarto
Na escuridão escaravelho descanso cego
De ânsias com ânsias de criança anseio
O recorte a sorte aquela parte
Da tarde em que o sol mais arde
E a sua saia saraiva de esguelha e espalha
Faíscas esfiapos faúlhas e farpas de luz
Aplanando os planos banhando as paredes de branco
E num momento a sombra dos recantos
Do meu recanto empurra
Trespassa de cor e água as vidraças
Gonzos espalhados de anjos tantos halos
Reflectidos nas garrafas frias
E grossos frascos de gelo frácteos
Explode um lago em sol fulmina a fonte de fotões
Festa alegre flores festões
Rendas de luz em folhos molham as sendas
Emersos frondam os olhos submersos
De lágrimas fisiológicas incontidas patológicas
E um sal de sol aguado na saliva
É onda profunda mandriona
Afundado num edredon
O peito de ser em vento satisfeito
Vento de lento alento acalentas o pranto
Pronto vento que arejas a areia da praia
Com sopradelas desmazelas os cabelos das donzelas
Ouves e escondes nas florestas as conversas
Impetuoso imperas à chuva imensa
Enfunas os vestidos no estendal e amparas as aves contra o sol
Varres oh vento as folhas às árvores
Vagueias as veredas os verdes vales
Desvendas verdades enfunas a densidade
Crivas de raiva o rochedo na sua vaidade
Investe e reveste de vigor o teu servo

E vinga oh vento a valsa da minha vontade

Paulo Ovo

Cavadelas

Entre a hifenização do indivisível
Ou a proposição entre aspas
Dos artigos artilhando artigos
Ou a semeadura de sinalefas
Nas traseiras da folha
Tudo cavadelas estéreis

Encetei sete letras a ponta de seta
Na retina-opalina do olho menina
O nome-monumento o santo monte
Fluiu sangue água e sal eflúvio da luz do sol
Dei à costa a palavra

Nicolau Divan

Canzonetta

Um peito de ser todo sol lamento
O incremento em ouro do teu beijo
Suspiro um pó que traz eterno
Adorna a seiva o puro lírio

Lúcia

e de tudo

E de tudo o mais pernicioso é
A transparência a fímbria a aparência

Orlando Tango

Morghen

26.8.08

Pudor

Não gosto que me vejam entrar
No local de defecação
É uma parte de mim que se vai

Marco Íris

Zen

A cryptomeria de fuste bifurcado
Clama
Deixa-me provar dessa vida
Separada
Seca o fuste gordo
Que ribeira imersa no tempo
Me engula a memória
Esse substrato enraizamento
E diluída a imaginação
Florirá na noite o outro fuste
De auto-contemplação
Dos verdadeiros frutos

Lúcia

Carícia

És rosada e tens a úngula fendida

Filipe Elites

VII

O egoísmo imanente
Da árvore só
Devora podre o seu fruto

A diferença entre intenção e gesto

Egofania ou Alofania
A pedra a noite compacta
Não o sabia

Emanas-te sobre as árvores
Mas não és o rio
Permaneces
Com a unção da nata
A luz, o ouro, a prata

Zé Chove

23.7.08

Hino ao Irmão Vento

Nem é tanto a luz é é mais o vento
Não é o tempo que afoga é o momento
Nada fundo pranto sob-desalento
Ninguém assiste à queda pára o tempo

Nunca alcança o proposto alcanço
Nenhuma inércia aguenta tal balanço
Não não é a luz que dá o avanço
Nada aponta o vento sem descanço

Não basta um folgo intermitente
No girar do mundo pendente
Nalgo mais constante mais permanente

Necessita o barco do sopro fulgurante
Não é da luz potente o movimento
É do vento é do vento incessante

Orlando Tango

Lisboa Romântica V

Archivo de imagens #127

Sequência X

a noite toma as árvores
com paralelas de luz
a clareira é possuída
a metade observa a metade
já tomada num silêncio emprestado
todo o ser noite

Zé Chove

Substracto I

a natural petrificação do gesto
dilui-se em contacto com o segundo
o suspiro grava a vergastada
no campo de areia virginal
onde se encavam destroços
doutras palavras

Zé Chove

Vertigens

a torre sineira
da desolada aldeia
é casa de aranhas
contemplo os campos celestes
sentado numa ameia
perto duma densa teia
à vertigem que revolve as entranhas
dobro-mesobremimmesmo
e caio desamparado na teia

Ivo Lascivo

22.7.08

Lisboa Romântica #4

Archivo de imagens #126

Memória Descritiva

Tangencío as paredes obliqúo
As perspectivas
Enquadro um segundo ponto de fuga
O horizonte afunilado num vértice
Um monumento de céu

Hiperbolizo a esférica calote
Em densa malha elíptica
E envolvo a ubiquidade do ovo
Em esquizóide mutação de superfície
Matriarcal não me permite

Nascer de novo. Rarefeita
a linha infinita é elusiva
charneira
e cruza um ponto sobre mim
em paralela dimensão que não existe

Zé Chove

Certidões de Registo – 2ª Conservatória

Waste Land – TS Eliot

The Cantos – Ezra Pound

Poema Contínuo – Herberto Helder

Aqueronte

A língua de vento alisa o lago-lençol
Nos limites crispa e baralha em
Espelhos líquidos de mil brilhos
Limalhas flamas sol sereno sol
Em dorso de sardinha

O inferno é uma eterna solidão
cantaste-me olhos nos olhos
nas margens do Arlanzón

Lúcio Ferro

Lisboa Romântica #3

Archivo de imagens #125

Hermetismo

o frigorífico hermëticamente
fechado purifica em gás desolador
inverno cerrado ao incauto
abre as portas do inverno o excesso
estalactite sobre estalactite
de gélidos tupperwares em vácuo
transparente gelo prisão eterna
de flores

Orlando Tango

Aditamento #5

Johnny Flynn - A Larum

Yeasayer's – All Hour Cymbals

The Tough Alliance – A new Chance

Vampire Weekend – Vampire Weekend

Amantes

A noite flui cristalina e rubra no vidro de cristal
E afaga o cabrito-sol
Perseguem-se como dois amantes inconfessados
Brincam tocam-se cedem e concedem
Envolvem-se azeite e água e choram
Assim assim uma vez e outra sem nunca se falarem
Exibem troféus seus anjos
Emprestam e experimentam sobre as mesmas árvores
Mas quem diz que se conhecem?

Madalena Nova

Lisboa Romântica #2

Archivo de imagens #124

Neo-Realismo

túneis percorrendo túneis
a víbora a si própria se engole
sonhei através do grande vidro
sobre a floresta sentado na carpete
verde escura duas garotas de botas
de cano alto
reclinadas nos sofás
cor-de-laranja com aspiradas cabeleiras de piche
e olhar entediado a chuva no vidro leva
a agradecer a vida moderna
o candeeiro de plexiglass alveolado
tremelica lá fora o céu troveja

Filipe Elites

Shot #21

O estúpido galã trepou
Pela baba senil
Da velha soporizada

Brás

Não Desistas

O esplendor dos arbustos enfezados
Vem tudo é glorioso no tempo
Talvez se liquefeito em petróleo
Sob as mornas banhas duma lama
Ou num esquecido fogo fátuo já depois
De soterrado levanta vôo a coruja
É um gaz mas é brilhante
A plena glória do ser

Nicolau Divan

Excessos Exegetas

As colinas coroadas com excesso
choram vinagre coalhado de mosquitos
as crianças atiram moedas
com violência
para afonte e não vão buscá-las
algumas tribus de exegetas
corroídas pela vaidade
as volutas de violinos
e as massagens com ímans
os passeios na Babilónia
saciavam de fome
um espirro
e nem chegámos a preencher
os requerimentos
fugimos

lúcia

Lisboa Romântica #1

Archivo de imagens #123

Meditação Oriental #4

Mastiguei todas as rochas
Servida está a tigela de lava
Não tens de comer as vísceras
Porque choras?
E o prazer se te descoso as feridas antigas?
Engolidas as caravelas
Defecados os brasões
Foram aplanados os montes os vales
São agora alcovas
Olhos perdidos por planícies
Crivadas de bocas sem fundo o rio
Subterrâneo de olhos sem luz
É vomitado em canto negro onde
Se banha de pálpebras descansadas
Um Maldoror
Ou será o Magog?

Lúcio Ferro

Cit.#12 - Arctic Monkeys

Curiosity becomes a heavy load,
Too heavy to hold, too heavy to hold

Arctic Monkeys

Chico...

Chicoteeia
Os seus frutos apodrecem agora no chão
Gritei-lhe
Nada escondas do sol
Então só me via o halo
Excitava a parte gorda dos braços vergastados
Antes de afogá-la

Filipe Elites

10.7.08

Restos

Da janela nuvens dia de pranto

Sob o leito do moribundo
Gemendo na penumbra
O tempo passa vermelho
No relógio digital

Mantos de veludo entapam o salão
Mágoas ensombram o coração
Pesam os maples de tons escuros
Abafam as lágrimas de luto

Rápida passou em queda
Turbina no lago espelho
Pluma negra flutuando
Veloz como uma flecha
Beija o lago suspensa

Rui Barbo

Danças de Salão

Não abriu a boca como criança
Levada ao bloco operatório
A sua carne pura de infante
Exposta
Traça um meticoloso golpe
Divide o músculo em duas margens
E a carne é boca são rosas
Florescem

Lúcia

Emilio Vedova - Tondo ,87

Archivo de imagens £121

Convento dos Capuchos

palmas das mãos nestas pedras de musgo afago o teu fôlego neste claustro oh Deus do fresco da capela me arrepia o teu sopro do teu cla...