1.6.08

13 de Março (x2)

Sim -13 de Março(x2) - também é esse
Mais ou menos o meu prazo
E até lá encarecidamente eu peço
Um fogo purificador que abrase
Qual luz e chama de crisol
Os escolhos e os folhos
Panejamentos e trapos
Que seguem atrás de mim
Como uma banda de aleijados
E eu os arrasto com medonha inércia
Pois erroneamente concluo não ser completo
Sem eles e sem eles não se erguer a sinfonia

Madalena Nova

Flannery O’Connor - Cartas

“Em ficção é quase impossível escrever sobre a graça sobrenatural.
Só abordando o tema de forma negativa.
A graça não se pode experimentar em si mesma.
O único que podes fazer com a graça é mostrar que está a mudar a personagem.
Todos os meus relatos tratam da acção da graça
sobre uma personagem que não está disposta a aceitá-la…”


Comité Central

Espero por ti há porta da cabine
Das fotografias de passe
Vestimentas tribais
Olhares esbugalhados
Não somos normais desde o sorvo
De Maldoror

Só uma linha ou duas
Prá apimentar a febra
Cubos e cubos de carne
Sobre o assador

Forçou a fina loiça dos pés
Loiça craquelé
Averiguou se as mãos não teriam manchas de sangue
Calou todos os sons da urbe externa
Gritou até sentir nas cordas vocais um ardor

Estremece ligeira
Do calor em brasa os colants
A textura de areão grosso
Cravada na banha dos braços
De noite entre as tabernas
Um deleitoso furor

O poço, a relva, a hera
Dependurada do telheiro
Os sóis brilhando em tudo
Mas mais nos cílios
Pestanas e cabelos
Meu amor

E ao final da tarde
Juntou a sua à voz do tordo
E chora sem consolo
Não não chora
Morre
Não não morre
Gozo
Gozo desta trampa de poema
- que aborto.

Diniz Giz

O Homem-Bala

Archivo de imagens #110

Crimes #1

Sempre achei piada – sabem?
Sair de casa sem
Dizer nada a ninguém

Custa um bocado a princípio
Abandonar os domínios
Só para abocanhar uma pita

Hoje estava frio
2 graus 2º o painel publicitário
luminoso no topo dum prédio

pareciam espadas jedi
as cancelas iluminadas por baixo
e ao longe são naves os sinais

a irmandade da roulote
é família que se junta à noute
debaixo das suas asas sou mais um filhote

ainda hoje choro ao comer shoarma
Jerusalém na boca mais que na alma
No transistor o kizomba brama

De regresso a casa barulhos
Estranhos marulhos
Entre os arbustos

Já o estacionamento
Todo o betão estranhamente
Em profundo silêncio

Tentei não pensar no caso
Mas não fiquei sossegado
E comecei a sentir-me observado

Flashes reflexos de histórias
Quase todas escabrosas
Cometas na noite memórias

Açaimes, cães raivosos
Kostoglotov o traga-ossos
Seres escondidos em poços

Estalactites de imaginação
Das penumbras de grutas uma visão
Onde embatemos cegos com aflição

Tudo são fantasmas
Fagulhas inertes em caves mal oxigenadas
Que brilham sem chamas

Aproximei-me do muro
De casa e morri de susto
um rosto branco dissolvido no escuro

o coração bombeou cavalgante
mas nas veias gelou-se me o sangue
e de alma evoquei todos os santos

agora no meu quarto ainda
tremendo mas sorrindo
relembrando o episódio agora findo

quem conhece melhor minha casa que eu?
Ainda que sepultada no profundo breu
Nem sequer os anjos do céu

Revirei tudo em silêncio…


Carta encontrada debaixo
De Marco Íris morto na secretária
Do seu quarto

Com uma broca
Espetada nas costas
E um sorriso espetado na boca

Paulo Ovo

Porto de Lisboa

Archivo de imagens #109

Morte ao Sol

Atormentámos o poeta
Obrigámos a fonte a jorrar
Sim rapaz merece ser escrito

A saudade lusitana
Símbolo de estupidez humana
Que se lamenta do tempo passado
Sem tirar todo o proveito
De alguém que já não está connosco

Eu mato as moscas
Mas deixo viver as aranhas
No meu quarto

O rio caudaloso com uma azenha
de cada lado

Quem é que
Munido das tabelas
Matemáticas deporá
O seu coração num prato
Para alimentar as víboras?

Atormentámos o poeta
Obrigámos a fonte a jorrar

Atado a um poste
no meio do deserto
vimo-lo secar como um sarmento quebradiço
todo o sangue, escorreram todas as lágrimas
secou toda a saliva e o suor das axilas
até que chegaram as miragens e a besta falou
até caírem secas as miragens
e por fim o próprio sol secou
e desintegrou-se em pó
o poste que sustinha o profeta.

Orlando Tango

Grand Theft Auto 9

Você ataca
Eu te ataco
Você ameaça
Eu bato

Cê está convencido
que entra e determina
mandamentos prá geral
mas aqui ninguém se inclina
só por que você
domina o capital

mu mu mu mu mudança
pro pro pro pro pro pro progresso

Somos bestas portentosas
Não conhecemos os limites
Da força, da razão, do juízo
Esmagamos os sonhos da multidão
Separamos famílias
Um para o Brasil
Outro pró Japão

O funk mais afandangado
Na disco mais podre da região
Filmes berlinenses e corridas de moto-cross
Em gigante e plana televisão
Empregado de bigode e laço
Bigode e laço o que é que eu faço?

Você ataca
Eu te ataco
Você ameaça
Eu bato

Rui Barbo

19.5.08

Haceldama

Haceldama
Submergiste a imensidão dos teus caprichos
Com o bálsamo do seu amor

Tens um pequeno muro das lamentações
Colado à pálpebra dos olhos
O abismo entre Lázaro e o Rico
É grande mas na terra era pequeno

Os piores homens podiam
Ter sido os melhores
E os melhores os priores?
Também lanças trigo bom para debaixo da terra?

Pft. Jeremias
“O coração é tudo o que há de mais astucioso.
E não tem cura.
Quem pode conhecê-lo?
- Posso Eu, que sou o Senhor: penetro os corações
E aprofundo os sentimentos, conforme o fruto das suas
Próprias obras”.

Amicus Dei essem si voluero

Uma atitude não se determina por um gesto
Um gesto pode inverter uma atitude
Bastava um pão dum lado e uma migalha de ódio
Do outro e ao contrário perante o abismo ficariam
Abismo que era um portão
O coração é tudo o que há de mais astucioso

Mas deitados na praça pública
Ou no triclínio sob tectos rebocados
Sempre sentiremos repugnados
As lambidelas dos cães impúdicas

Oxalá que em vez das chagas
Nos lambuzassem os olhos
E deixássemos de ser cegos
Amicus Dei essem si voluero


André Istmo

Flutuante

Tenho de me vacinar todos os dias
Elevar a comoção até ao céu
E chorar inconsolável
No escuro da sala de cinema
Rodeado de artigos americanos
Engastado num conforto aburguesado
Que me faz dançar nos halls
Em pedra das empresas
Assisto a secretárias apaparicando
Ao patrão errado
Ensoparam o cacto de plástico
6ª feira dourado cara e casaco
Ofusco a plateia sou promíscua
Lantejoila
Pões no canal dois
E intelectual serei
“Amo ergo sum em justa proporção”
Mas se Zappas fico com fome, sou assassino,
Choro fungando a colcha
E incorporo ideais até ao fim da vida
E faço chacota
Do meu vizinho do bigode escafiado
De tanto chorar
Pelos emigrados filhos em Espanha

Marco Íris

17.5.08

Wyvern - Final Fantasy

Archivo de imagens #106


Meditação Oriental #2

Já em criança sustinha
A respiração com medo
Das doenças ao passar
Pelo talho entre as carnes
Onde cospem as varejeiras


Filipe Elites

Afago o Grácil

Uns palmos a mais e tinha vista do mar
Ando com uma defloração no cotovelo
Como escamas talvez da veia marítima
Bebedeiras em bares mal-afamados

Venho curá-las a casa
com lamentações
uns palmos a mais
maldito cotovelo
Sentado de perna aberta
Na retrete
Mando grandes arrotos para acordar
A vizinhança
A bezana, o reflexo do azulejo
A intermitência
Do néon no espelho
E o balançar do badalo do autoclismo
Sacodem memórias
Senão todo, pelo menos parte do filme
Da minha vida
E ainda algum recheio.
O álcool benfazejo
anestésico
De queixo caído quase babado
Abre as comportas ao grande rio de ideias
luminescências, relâmpagos,
Conceitos morais, projectos de vida
Agoniado com o cheiro na roupa do tabaco
Apoio a cabeça ao toalheiro
Bem poupo no uso do papel
Higiénico
-Dobra e volta a usar-
Afago o grácil
Onde estão os pátios
À noite sob o céu de Verão
Onde está tocador do alaúde
Ainda não cheirei a ambrósia
Onde se esconderam as garotas das saias
Compridas e os decotes enfunados
Onde estão as palmas
Espeto a cara toda na almofada
O pijama e a barriga para baixo
A neblina sai do corpo e evapora
A cabeça
Anestesia geral e sonhos
Pelos becos fora


Diniz Giz

Barómetro

Archivo de imagens #105

Sem paráclito

Toda nua
Na manhã chuvosa
Deitada no viveiro das trutas
Olha o céu desfocado
Bebeu dum trago o leite
Estragado o coração amargo
Chora pelos cabelos
Água e lama
Alma poroso esqueleto
Sem paráclito
Lambe no gelo
Os reflexos perdidos

Lúcia

Meditação Oriental #1

Deixó fuçar um pouco mais
No seu vómito
Não vês como se diverte?
Mas se vires que se afoga
Estrafega-o pelo cachaço
E esbofeteia-o até acordar
Olhará para ti como o seu salvador

Lúcio Ferro

Under Pressure

Estuporadas meias têm um elástico
Tão forte que no final
Do dia parece que andei de grilhões
Dos sulcos na barriga das pernas
E com os pés inchados

Filipe Elites

13.5.08

Arião e o Golfinho - Max Klinger, 1880s

Archivo de imagens #104

Resgatai-nos

E o resgate dos nossos reinos?
Afogados entre lajes
Passos ecoam em labirintos sombrios
Incontáveis escadarias e patamares
Torres de pedra esquecidas
Baldaquinos empoeirados
Dominamos alguma matéria
E ao final do dia
Ao som de sintetizadores épicos
Imortais depositamos nossos corações
Em redomas de cristal
Resgatai-nos!
Com a diferença de séculos ou horas
Chegam de longe através
De fundos rasgos na pedra da fortaleza
Sons infra-humanos

Zé Chove

Razão e

2 pássaros pendurados no mesmo ramo
1 de cabeça pra cima
outro de cabeça pra baixo
patas com patas vão-se debicando
vergando o ramo

Carla Corpete

4.5.08

Entre Arbustos

Entre arbustos de humidade frondosa
Escondidos pelo final da tarde
Estreitamos pétalas de rosa
Entre a língua e o palato
Como se cometêssemos pecado

Vogando halos gradientes
Entre o púrpura e o amarelo
Encontramos rostos salientes
Ora nos são carícia ou flagelo
Concatenam nossa vida elo a elo


Lúcia

Corpo e Alma

Parti do centro do livro e fui
escrevendo em espirais
cada vez mais longe fui
rabiscando nas esferas siderais

Situações em duplicado
envelopes lacados
vários utensílios de escrita
linguagem supersónica, transcendental, hieroglífica

desramar uma árvore
pela fresca
a árvore solitária
a única na terra

situação proto-estável prevalecendo
reminiscências de distúrbios
do foro psicossomático como
fogo que segue lavrando
nos interstícios das paredes
várias horas após a circunscrição
do incêndio.

Fumava em boquilha
bico de íbis glamourosa e perigosa
sentada entre lençóis secando
no estendal e eu desramava a árvore
Arnaldo educado nos círculos
mais oblíquos da sociedade partiu
o copo de cristal de Murano
com a dentadura
Síndrome de Koestler ou efeito de Kropler
- Atrapalhação. Chegou-nos o estampido
do copo a estalar através
da sombra do alpendre

Prosseguimos chanfrando e boleando
A matéria
Mas por mais que meditemos ou escrevamos
- Opá – Espetei de novo a cavilha na granada
Mas não deve resultar –
O espírito é um mau barro
Por mais voltas que dê o oleiro
Jamais será moldado


Paulo Ovo

Joseph Conrad

Archivo de imagens #102


2.5.08

Bucólicas

Num plácido domingo o cavalo
Do meu primo comia no pátio
Uma mecha de loiro cabelo
E os fios abafavam-lha traqueia

Era tão opressivo o calor que só
Deitado na tijoleira da cozinha
Encontrava conforto hipnótico
O serrar das cigarras no jardim

No alguidar verde cheio de vinho
Boiavam calotes de laranjas
E metades de porco-da-índia
Marinando para a janta


Diniz Giz

Dos Beatles

Sucedâneos de beatles maravilha
Das maravilhas o psicadelismo
Pop elevado à enésima
Potência pensada
Para agradar melodias
Verdadeiramente melodiosas
E ritmos metronicamente
Estudados por favor
Não larguem perto
Das crianças que podem ficar
Perturbadas


Marco Íris

Statue in the Père-Lachaise Cemetery - Paris

Archivo de imagens #101

It's A Kind Of Magic

estas pedras da calçada estão coladas
com pastilhas elásticas
na infância bebi champô
e comi baton

toda a tarde debitando
patranhas e ridículos planos
tomando concentrados de estupidez
arrotando como alarves
debatendo temas cada vez
mais sinceros – travertino – uns com os outros
e no final do mês
o total da despesa
enviado foi um enviado
que dominasse as nações
cresceu a flacidez debaixo dos braços

escrevo esta carta final
antes dum banho relaxante
estou todo pegajoso
nas zonas onde dobra o corpo
todo o dia não me saiu da cabeça
que a justiça é a mais cabal
prova de existência de Deus

Ela escrevia como os esgotos
desaguam no mar

chorámos juntos pelos pobres
comunistas e socialistas que ainda esperam um salvador
passam as noites tentando salvar o mundo
enquanto caem à velocidade da luz num poço sem fundo
vêm tudo rapidamente e não agarram o tempo e não sentem dor

estou aqui nesta alcova
quase beijando estes novelos de lã
beija beija antes
que seja selado o féretro
beija sem desmaios não se sobressaltem
os demónios estás perto
de completar o mais perfeito ritual
as formigas soluçam de dor debaixo da terra
unge toda a horta com escarros pagãos
Religiosidade e bem parecer?
Saltitas com cara de santo
roubando no supermercado
tiras de bacalhau (seco)
irritas-te com os filhos dos outros
se não se calam...

Entrega cabal exige-to protocolo
Em cada minudência
Aplicas toda a tua sabedoria
Mas não fazes as coisas ao acaso
Abdica, abdica, abdica
Ecoa o poço sem fundo
Engole a pedra e não devolve o som
Talvez já não haja vida...


Orlando Tango

15.4.08

HOMEM PARA DEUS

Ele vai só ele não tem ninguém
onde morrer um pouco toda a morte que o espera
Se é ele o portador do grande coração
e sabe abrir o seio como a terra
temei não partam dele as grandes negações
Que há de comum entre ele e quem na juventude foi
que mão estendem eles um ao outro
por sobre tanta morte que nos dias veio?
É no seu coração que todo o homem ri e sofre
é lá que as estações recolhem findo o fogo
onde aquecer as mãos durante a tentação
é lá que no seu tempo tudo nasce ou morre
Não leva mais de seu que esse pequeno orgulho
de saber que decerto qualquer coisa acabará
quando partir um dia para não voltar
e que então finalmente uma atitude sua há-de implicar
embora diminuta uma qualquer consequência
O que Deus terá visto nele para morrer por ele?
Oh que responsabilidade a sua
Que não dê como a árvore sobre a vida simples sombra
que faça mais do que crescer e ir perdendo as vestes

Oh que difícil não é criar um homem para Deus



Ruy Belo, TODOS OS POEMAS I

Nocturnos

Mãos sapudas de noite
Percorrendo as sebes e cercas
Destas ruas até a mão ficar dormente

Correm os cavalos no ginásio
Até de madrugada

Fizeram fogueiras junto ao mar
Barrotes de armar barracas
Borbulhando o aroma
Do petróleo queimado

Na cama penso sem interrupção
Num como pai o outro o mais velho irmão

Corre corre corre corre
Corre corre corre corre
Toda a noite num sufoco
Ansiando a madrugada
Corre corre em alvoroço

Mãos sapudas de noite
Percorrendo as sebes e cercas
Destas ruas até a mão ficar dormente

Passei com a minha avó
De visita ao apartamento duma sua
Amiga cubana
Num prédio pouco iluminado do Bairro Alto
Dona I. Cantora conceituada de Cabarets
Bem afamados
Jogam as duas crapot
perdido entre armários tapetes e vestidos
no escuro envolvo-me nos veludos
perdido sem ar toda a noite entre mantas e sobretudos

num muro iluminado a lampião
ressequido e ensopado
ressequido e ensopado
de mau cheiro
bem a vermelho com pontos
de exclamação
Vamos Ochupar Lisboa

Mãos sapudas de noite
Percorrendo as sebes e cercas
Destas ruas até a mão ficar dormente

No cadeirão de veludo
Gania o meu tio
Uma idade existe em que os meninos
Parecem meninas e as meninas
Parecem anjos
Desligado o candeeiro
Não conseguia dormir deitado

Verde-hirsutos de porte
Esbelto conformam as alamedas
Com eles chora
O vento sobre
A campa da minha ofélia

Mãos sapudas de noite
Percorrendo as campas
Destas ruas até a alma
ficar dormente

Zé Chove

Deckard

Archivo de imagens #32

Noite Profeta

Da minha cabana
de madeira velha
através da porta aberta
oiço a mata que clama
através da noite profeta

está fria e escura
não se vêem as estrelas
as urzes transpiram secas
onde os mochos ululam
numa noite profeta

a cabana é sempre meu caixão
e lamenta toda a floresta
e através da porta aberta
amortalha-me em escuridão
nesta noite profeta

Zé Chove

Desejos Matinais

Saímos de casa atrelados ao
Cão desejosos de em fato-de-treino
encontrar as cadelas das vizinhas

Manuel Bisnaga

The Brown Lady

Archivo de imagens #31

Chorando na Missa

Furtaram-lhe a carteira
Quando absortos em orações
Ajoelhados na igreja
Antes da missa começar

Numa angústia atroz
Em deslavada carpideira
Implorando a Deus um milagre
Subiu ao presbitério
Chorando a intervenção do padre

Para adensar o mistério
Era constituída a assembleia
Duma amalgama de carantonhas suspeitas

Ameaçava atrasar-se a cerimónia
Pois perante tamanho imbróglio
Ficámos presos de impotência
E instalou-se o desconforto

Até que uma paroquiana
A arrastou em baba e ranho
Através da nave central
Durante a missa ecoaram até ao final
Abafados pelo carvalho do nártex
Gemidos arrítmicos guturais

Lúcio Ferro

Outras Vidas

queremos ser bons
almejamos a excelência
que reparem no nosso esforço
não queremos
transparecer naturalidade
e vida airosa
vivemos à tabela
sem desperdiçar um minuto
murchamos nossas potências
em favor da força do grupo
mas à noite libertamos
de novos as bestas


Filipe Elites

14.4.08

The Nightmare - Henry Fuseli - 1781

Archivo de imagens #31

Spazzatura IV

Arreliado?
Esta caminhada
É água no poço de remissão
Onde afogarás os teus pecados
Pai ao filho

Mioleiras infantes
De informação enmarmitada
Atendei

À porta a ferrugem assumiu uma vaga
Forma de carro
As heras, ervas daninhas, e tojos secos
São abafada neblina que tudo envolve
Tudo parece despenteado

A campainha rosnou ao longe
Como um tio catarroso num quarto
Escondido da casa
É água no poço de remissão

“The histories are the same
For centuries
We just change the scenarios

We’ve learned to transmute ourselves
Into other personae, and assume
Different masks as our teachers doce nobis
We can feel deeper in your feelings
Explain better why you’re suffering
And give you new and fresh meanings
For your life.”

Bana dixit.

Ophelia, Dying Elaine, Lady of Shalott
Caldeirada de escargot

Hei-de escrever sobre as virtudes
Como a ordem
(hands in the dark)(Flores na valeta)

Sabe tão bem ser cego
Para não olhar para a vossa tromba, F.’sD.P.
Pensando ou não pensando?
Como é que serás mais louca?
Forçar o pensamento não é natural
E forçar o não pensar, não é artificial?
E viver na perplexidade?
Forma de vida animal?
Onde afogarás os teus pecados?

Destroi-me a dentadura
E renova o stock com favas douradas
Destroze mi mano
Con el quita grapas

Alguma roupa só convém usar em casa

Só não tens dó de mim
De mim só não tens dó
Dó sim não tens
Mas quem és tu sem mim?
Só sem mim
É água no poço de remissão
Onde afogarás os teus pecados

Zé Chove

11.4.08

Carnificina Canibal

Dia de nevoeiro através_____Lá fora o sol
Da janela____fazia ondas no terraço
Da cozinha em que peguei____sob um telheiro iniciei
Numa terrina cheia____atiçando as brasas
De azeite____e esfreguei
Derramei____sem lavar as mãos
sobre a mesa e limpei____do carvão
a pele das mãos, o tampo____a carne mole e fresca
de mármore tudo envolto____com um preparado de ervas
em óleo____e óleo
depois peguei num lençol____e vinho morno
branco____e fogueei as grelhas
e estendi-o____que pingou borbulhas
sobre o tampo____borrifei as chamas
polvilhei farinha____dispus os nacos
displicente e com carinho____de forma aleatória
sorri com o cenário____e envolvi-me de fumo
e derreti margarina num tacho____e passei as mãos
derramei uma lata____pelo cabelo
de leite____e verti sangue e alhos
condensado____e acalmei as labaredas
e em cada passo____acompanhado de cerveja
fui lambendo com deleite____fui mordiscando ávido
os excessos____os bifinhos
dos dedos____esturricados

Orlando Tango

Nemo 33

Archivo de imagens #30

Urbanismo

Sou uma casa inundada
A estrutura há muito já ruiu
Não cai por estar apoiada
Nas restantes casas do bairro

Madalena Nova

Dúvida Original

Maldita dúvida
Que me amarga as entranhas
Enche de escrúpulos
Tinge as memórias
Tira-me o sono

Em vão busco consolo
Em vão tento esquecê-la
Assentou arraiais
Pesado grilhão basiloma

Se pudesse sacudir a alma
Atirá-la como uma pedra
Mas está num recanto
Onde ninguém chega

Só quem empreende
Uma jornada negra
Através de espirais
Num sulco original

Lúcia

8.4.08

Oração

De joelhos Te peço
totalmente consciente
e com total adesão da vontade
que me concedas Senhor
um cataclismo
Dispusestes as coisas
de forma a que nos doa alcançar
a perfeição
(e nunca a alcançamos)

Um maior tormento
Um maior grau
de destruição
devolvem-nos uma maior pureza
permitindo uma mais plena
renovação

e choro de alegria por saber
de antemão
que tudo nos concedes
e choro ainda de receio
não alcançar o que peço
pois sempre contas
com a minha liberdade
Oh Deus não oiças
a confusão
de espíritos suplicantes
que meu pobre corpo alberga
faz prevalecer antes
a tua Graça sobre esta cega

Carla Corpete

4.4.08

Lamento Judeu

Huuunf inspiro o cheiro pútrido a morte enquanto
Pasto bêbado pelas ruelas apoiando
As mãos nas padieiras e ombreiras das portas

A lua cheia fere-me os olhos
Não vejo mas sinto agora
Um vento gélido como um banho
Gelado e sinto
Uma multidão de olhos
Fixos em mim
E com ébria lucidez
caio em mim
e como um barco no mar alto
sou assolado
revolta-se o estômago com acidez
e vomita e vomita
uma poça de pecado

entram agora
no meu quarto com violência
cingem-me os rins
esbofeteiam-me
e amargam-me a boca
com pedaços de carne
ooohhuu que fiz eu para merecer tal suplício

mas a dor desperta-me
a lua ainda brilha
é agora conforto
uuuuuhhhhhuuuu
Lamento aterrorizado
mãos e punhos
sangualhados

sou arrastado
mudamente
através da turbamulta
num salto
a um estado de salvação
que não pedi
não compreendi
e morrerei cego
e bêbado

Lúcio Ferro

Titanic





















Durante a noite, o Capitão Smith e o Quarto Oficial Boxhall conseguiam ver luzes de um barco que estava apenas a 16 quilómetros – 6 a 10 milhas do barco. Então, à 00:45, foram mandados foguetes de cinco em cinco minutos. A princípio, o barco parecia aproximar-se. Mas depois as luzes desapareceram. As esperanças de ajuda desapareceram com as luzes.
Por que estaria o navio tão perto? Por que é que não ajudou?
Algumas pessoas pensam que seria o Californian. De fato, a tripulação do Californian viu luzes no céu e luzes de um navio. Mas o navio parecia pequeno para eles. Quando tentaram mandar-lhe uma mensagem, não houve resposta.

Lamentos Cegos

Diz o cego do metro:
“É mais fácil encontrar uma beata
No chão que alguém me dê um cigarro”

Nem quem o grão semeou
Do grão há-de comer
Não tem dó
A vida sob uma mó

Não quero aprender
Só quero certificações
Diplomas, certificados de habilitações

Muito devia ser muinto
E 13 treuze

Todos deviam dizer molhos
Da mesma forma
E não fôrma
Molhos e molhos
De ideias marejadas
Nos meus olhos
Como argueiros empilhados
Ao longo dos séculos
Dêem me um cigarro

Tum pe te pumpumtchim
Tum pe te pumpumtchim

António arribou ao escritório
Com estrépito e atónito

Esvaíra-se o lago de calma
Espelhado nos olhos da sua alma

Como me sinto só
Tentei restabelecer o diálogo
Com todos os meus empregados

O que é o Ultramar?
(envie-me pdf’s e ebooks sobre o tema)

Brilimpimpimtipipimtrim
Gaita-de-beiços na vara
- Oh meu Deus quem virá salvar
os nossos cegos? –
Todos os povos têm seus milagres
O milagre do pensamento
O milagre da guerra
O milagre do comércio
Das artes, do desporto, do silêncio
Foi da dinâmica dos astros?
Multiplicidade de impulsos interiores?
Fortes amizades ou um forte estado?

Brócópótrópóp´popótróc pim
Caixa das moedas e varão central

Cada vez que te dobras
E perdes raio de visão
O estado investe e explora
O teu bem amado quinhão

Filipe Elites

Mau Dormir

Sou o que mais sofre e ainda
me incitam a pagar a rodada
olho desconsolado na cerveja
uma mosca morta a boiar
só se está bem na cama

Acordo mole no escritório
com medo que o patrão
veja esta bagunça e lhe
chegue ao nariz o cheiro
a ropa e carne estufada

de olhos embotados como
batatas, vagueio secretárias
durmo sempre em agonia
com ideia de ser apanhado
de pijama por um funcionário

De novo o acne do adolescente
De novo mau génio e raiva impudente
De novo os sonhos grandiosos
De novo os serões ociosos
De novo na cama deitado

A música é foleira – não contesto
Mas atiça-mo sentimento
Não faço grandes considerações
Já estou deitado na cama

Alguns poemas ficam espinhados
Quando vagueio na cama já deitado
Dos riscos de contar as sílabas
Parece que brilham, parecem cactos
Secando nas dunas do deserto

Marco Íris

Convento dos Capuchos

palmas das mãos nestas pedras de musgo afago o teu fôlego neste claustro oh Deus do fresco da capela me arrepia o teu sopro do teu cla...